A chucha

Demos-lhe a chucha ainda na maternidade. Agarrou como se sempre tivesse tido uma. Lembro-me de ser ainda muito bebé e me dizerem: ela tem chucha em quase todas as fotografias. E era verdade. Agarrou-se à chucha por consolo que se tornou vicio. Nunca chorou muito, mas quando o fazia a chucha era milagrosa. Quase a fazer três anos (e com os dentes ligeiramente arqueados) decidimos que íamos tentar que a largasse este verão. A escola ajudou porque durante o dia nunca usava, era só mesmo para dormir e foi importante para este processo de desmame. Mas mal acabou a escola e ficou de férias em casa, a chucha voltou a estar bastante presente e servia para o mínimo consolo ou apenas mimo. Ela queria largar, dizia que ía dormir sem chucha naquele dia mas depois não conseguia. Fui dizendo que a chucha faz mal aos dentes que ficam tortos e feios e que os meninos quando crescem já não precisam de chucha… Houve um dia que juntámos as chuchas todas (deviam ser umas 10, muitas diferentes). Ela escolheu uma e ficou só com aquela. As outras pusemos num saquinho e deixámos na janela. O Pai Natal veio buscar e trouxe um pijama da minie que ela tanto queria. Queríamos que fosse ela a querer largar, que partisse dela e fosse gradual e de uma coisa tínhamos a certeza, ela queria mas não conseguia! Umas semanas mais tarde fomos ao zoo e eu comecei a dar a ideia de darmos a chucha que sobrou aos golfinhos, que eles iam gostar de brincar. No dia em que fomos, no final do espectáculo dos golfinhos perguntei se lhes queria ir dar. Disse que sim. Tremi por dentro e sorri por fora. Deu, da mão dela a última chucha. Eu chorei por dentro, tremi por fora (não consegui evitar) e sorri de orgulho. O meu bebé, não é mais assim tão bebé. Está crescida, é forte, sabe o que quer, não hesitou e ficou muito feliz com ela própria. Estas últimas duas semanas, sem chucha, têm sido difíceis. A chucha é um vício como outro qualquer. Ela punha os dedos na boca, o óó na boca, não conseguia adormecer (ela que nunca teve dificuldade nenhuma e sempre o fez sozinha), as birras tinham uma proporção bastante maior. Mas nunca pediu a chucha de volta, nem nunca pôs a chucha da irmã na boca (embora eu saiba que tantas vezes lhe apeteceu). A mim custou-me muito, muitissimo ver e sentir esta transição que de leve teve pouco. Agora as coisas estão a acalmar e acho que o regresso às rotinas da nossa casa também vai ajudar.

Confesso que “olho” para a chucha de maneira diferente agora. Demos-lhe a chucha para conforto dela e sobretudo nosso. Há um dia que temos que a tirar, por eles, que são crianças e não conseguem perceber porquê. É cruel e custou-me muito. Teve que ser e agora já está, e eu sinto um orgulho enorme por esta miúda que me ensina tanto e que me surpreende todos os dias. Esta índia, é de facto muito especial.

 

Ferias Porto Covo 2017 (pf)-5

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